Dólar redefine leitura de crédito e risco de emissores na AL


Movimentos de alta ou queda do dólar afetam diretamente o resultado de empresas latino-americanas com dívida em moeda estrangeira, mas o impacto vai além do balanço. A variação cambial também altera métricas de crédito, capacidade de pagamento e a disposição do investidor internacional para financiar emissores da região.
Segundo Laszlo Lueska, gestor da Octante Capital, a leitura desses efeitos exige distinguir impacto contábil, geração de caixa e perfil de endividamento. "Em empresas exportadoras, a alta do dólar pressiona o resultado financeiro por causa da reavaliação da dívida, mas, ao mesmo tempo, tende a fortalecer a receita operacional e a geração de caixa. Quando há alinhamento entre a geração de caixa em dólar e as obrigações na mesma moeda, a empresa conta com um hedge natural que suaviza o impacto líquido do câmbio", afirma.
O efeito sobre a capacidade de pagamento também é direto. Quando o dólar se valoriza, o serviço da dívida em moeda estrangeira passa a exigir mais recursos em moeda local, pressionando liquidez e caixa operacional. Indicadores como dívida líquida sobre EBITDA e cobertura de juros podem se deteriorar por efeito cambial, mesmo sem mudança relevante na operação da empresa.
"Na prática, isso pode encarecer o refinanciamento, restringir o acesso a novas captações e, em algumas estruturas, pressionar covenants financeiros ou outras cláusulas contratuais ligadas à liquidez e à qualidade de crédito do emissor", explica Laszlo. Entretanto, nos últimos meses, a tendência tem sido a contrária. Com o dólar em queda, emissores de dívida denominada na moeda americana podem auferir ganhos cambiais e alívio no resultado financeiro como resultado do subsequente barateamento dessas obrigações em moeda local.
No plano macroeconômico, a dinâmica do dólar influencia o balanço de pagamentos dos países da região por dois canais. O primeiro é comercial: países com exportações fortes e geração robusta de divisas tendem a lidar melhor com períodos de dólar forte. O segundo é financeiro: para Laszlo, o enfraquecimento global da moeda americana tem impacto positivo para condições financeiras, aumentando fluxos de investimentos para economias emergentes e reduzindo a pressão sobre moedas locais.
Em 2026, essas duas dinâmicas vêm sendo acompanhadas na avaliação do risco soberano na América Latina, especialmente em economias mais dependentes de capital estrangeiro e com necessidade recorrente de refinanciamento da dívida. Um dos casos citados por Laszlo é o da Argentina, que vem se beneficiando de um cenário de dólar mais fraco e do bom desempenho de seu setor exportador para acumular reservas em moeda forte e fazer frente aos vencimentos de ainda elevada dívida externa.
Para o gestor, a reação dos investidores internacionais a movimentos cambiais relevantes não depende apenas dos fundamentos microeconômicos de cada emissor. "Muitos fundos globais operam com limites de risco que levam à redução de exposição quando o dólar se fortalece, independentemente da qualidade individual do crédito. Em ambientes de dólar mais fraco, por outro lado, tende a haver compressão de spreads e melhora de liquidez, desde que os fundamentos do emissor acompanhem esse movimento", avalia.
"Mais do que o nível do dólar em si, o que efetivamente pesa sobre os spreads é o que esse movimento sinaliza em termos de risco-país, acesso a financiamento e capacidade de pagamento", acrescenta.
Sobre a Octante Gestora
Fundada em 2008, a Octante é uma gestora de recursos especializada em crédito, com atuação nos mercados local e internacional. A casa administra estratégias focadas em ativos de crédito, incluindo fundos com exposição a títulos corporativos e soberanos emitidos no Brasil e no exterior. Atualmente, possui aproximadamente R$ 600 milhões em ativos sob gestão. Sua atuação abrange análise de risco, construção de portfólios e monitoramento contínuo dos mercados de dívida, com foco em emissores corporativos e soberanos, além de instrumentos de renda fixa.




