Cirurgia fetal reduz sequelas de mielomeningocele


Durante décadas, operar um feto ainda dentro do útero foi considerado impraticável: o risco de intervir antes do nascimento superava os benefícios esperados. Avanços em técnicas de imagem, anestesia e cirurgia abriram espaço, mais recentemente, para um grupo de condições em que corrigir o problema ainda na gestação resulta em desenvolvimento melhor para a criança. A mielomeningocele, forma mais grave de espinha bífida, é um desses casos.
A malformação ocorre quando a medula, as meninges e raízes nervosas se projetam para fora da coluna por um defeito formado ainda no início do desenvolvimento embrionário, geralmente na região lombar, provocando déficits neurológicos como fraqueza nas pernas, dificuldade para caminhar e alterações no controle da bexiga e do intestino.
A condição também costuma vir acompanhada de hidrocefalia, acúmulo de líquido no cérebro que, em parte significativa dos casos, exige a colocação de uma válvula (o shunt) para desviar o excesso de líquido e aliviar a pressão intracraniana.
"Nos últimos anos, o acúmulo de experiência dos centros de referência trouxe refinamentos técnicos que tornaram a cirurgia mais segura e mais rápida. Além disso, passou-se a tolerar a realização até uma idade gestacional um pouco mais avançada, até 27 semanas, o que amplia a janela de oportunidade para pacientes que recebem o diagnóstico mais tardiamente", afirma o Dr. Rafael Bruns, ginecologista, obstetra, especialista em medicina fetal e cirurgia fetal, professor associado na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutor em ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Quando a correção é feita ainda na gestação, a chance de a criança caminhar sem órteses ou outros dispositivos aos 30 meses dobra, a necessidade dessa válvula cai de 82% para 40% em 12 meses, e quase o triplo das crianças atinge função neuromotora acima do esperado pelo nível anatômico da lesão.
Os números são do Management of Myelomeningocele Study (MOMS), ensaio clínico randomizado publicado em 2011 no New England Journal of Medicine, que comparou o reparo da mielomeningocele antes de 26 semanas de gestação com o reparo padrão realizado após o parto.
Toda essa evolução, no entanto, só chega à gestante se o diagnóstico acontecer a tempo. Um dos obstáculos é a dificuldade de visualizar a condição diretamente no ultrassom do primeiro trimestre.
"O médico precisa estar atento a sinais indiretos, pistas que aparecem no cérebro do bebê antes mesmo de se conseguir ver a coluna com clareza. Eu sempre digo que o ultrassom é como um "jogo dos 7 erros". Às vezes é difícil perceber o que está diferente, mas, uma vez que você aprende a reconhecer as pistas, passa a enxergá-las com clareza", compara o Dr. Rafael Bruns.
Ele cita a translucência intracraniana alterada e o chamado "dry brain" — redução do líquido que envolve o cérebro fetal nessa fase — como os principais indícios buscados no exame de rotina feito com 12 semanas de gestação.
Apesar de poder ser realizado até 27 semanas de gestação (quase sete meses), os melhores resultados são observados se o procedimento é feito antes de 24 semanas (antes de completar 6 meses). Em casos de diagnóstico tardio, a dificuldade técnica aumenta, e o benefício da cirurgia pode já não ser o mesmo.
"Nesses casos, o tratamento acaba sendo feito somente após o nascimento, com resultados inferiores. É por isso que o diagnóstico precoce e o encaminhamento rápido ao especialista são tão importantes: cada semana conta", explica o médico.
Nem toda gestante com diagnóstico de mielomeningocele é candidata ao procedimento; a decisão é sempre avaliada caso a caso por uma equipe especializada.
Para mais informações sobre a cirurgia, basta acessar: https://www.rafaelbruns.com.br/mielomeningocele






