Síndrome do túnel do carpo pode evoluir sem aviso


Formigamento na mão, dormência noturna, dor que vai e volta: para boa parte dos pacientes, são queixas que se acomodam na categoria do que se resolve sozinho. O problema é que, por trás disso, pode estar em curso o processo de lesão de um nervo — um processo com prazo. Passado certo ponto, a perda de função deixa de ser reversível com tala ou injeção, e a única saída é a cirurgia.
A síndrome do túnel do carpo é considerada a neuropatia compressiva mais comum do membro superior, atingindo entre 1% e 5% da população, com maior frequência em mulheres na faixa dos 50 aos 54 anos, pacientes com obesidade, diabetes ou hipotireoidismo, e profissões com movimento repetitivo do punho. Só em 2025, ela afastou mais de 44 mil trabalhadores no país, segundo a Previdência Social.
"A síndrome é causada pela compressão do nervo mediano no punho, no ponto em que ele passa dentro de um canal estreito chamado túnel do carpo", explica o médico ortopedista Dr. Bruno Gianordoli Biondi, especialista em cirurgia da mão do Centro Médico Alto de Pinheiros (CMAP). Esse nervo dá sensibilidade ao polegar, ao indicador, ao dedo médio e à parte do anelar, além de comandar a oposição do polegar (o movimento por trás de gestos simples, como segurar um copo ou escrever).
"O túnel é um espaço curto e confinado, em que a pressão se eleva com facilidade, e há ainda variações individuais na largura desse canal", completa. Essa característica anatômica ajuda a explicar por que a compressão evolui da forma como evolui: "Começa com alterações na oxigenação do nervo e inchaço ao redor dele, e pode evoluir para perda da camada protetora das fibras nervosas e, nos casos mais avançados, perda das próprias fibras", detalha o especialista.
Os sinais que pedem avaliação especializada
Formigamento ocasional, dormência noturna e dor que vai e volta costumam ser os primeiros sinais, mas há um conjunto de sintomas que aponta para um estágio mais avançado: fraqueza para mover o polegar, perda de sensibilidade que não melhora e dormência o dia todo, não apenas de madrugada. "O mais específico é a atrofia da musculatura da base do polegar, a chamada atrofia tenar, que é um achado mais tardio e reflete perda significativa de fibras nervosas", diz o Dr. Bruno Gianordoli Biondi.
Juntos, esses sintomas costumam indicar que o tratamento sem cirurgia não vai funcionar, principalmente quando já duram mais de dez meses e o paciente tem mais de 50 anos. Há também uma forma aguda da síndrome, que começa de repente com dor forte, perda de sensibilidade ou fraqueza, e pode exigir cirurgia de urgência.
Na maioria dos casos, o diagnóstico não depende de nenhum exame. "É essencialmente clínico, baseado na história e no exame físico", pontua Biondi. Exames eletrodiagnósticos, como a eletroneuromiografia, não são obrigatórios; entram apenas quando o quadro é atípico, quando é preciso descartar outra causa, como compressão na coluna cervical, ou para estimar a gravidade e o prognóstico cirúrgico.
Quando a cirurgia é indicada?
Nos casos leves a moderados, a primeira escolha continua sendo o tratamento sem cirurgia: terapia manual, exercícios de deslizamento neural, fisioterapia, tala noturna em posição neutra e injeções de corticosteroide. Se não houver resposta em até seis semanas com o tratamento conservador, segundo o Dr. Bruno Gianordoli Biondi, é hora de encaminhar ao especialista em cirurgia da mão.
Essa indicação, porém, nem sempre é um plano B; pode ser a primeira escolha quando o quadro já é grave, e há também um motivo objetivo para preferi-la mesmo nos casos mais brandos.
"As evidências mais recentes mostram que a cirurgia tem benefício superior ao tratamento conservador no longo prazo. A liberação cirúrgica tem cerca de duas vezes mais chance de normalizar a condução nervosa e resolver os sintomas aos seis e doze meses", afirma o ortopedista, citando o estudo DISTRICTS, de 2025, que mostra que quem começou pela cirurgia teve recuperação mais rápida e melhores resultados funcionais do que quem começou pelas injeções.
Na prevenção, o Dr. Bruno Gianordoli Biondi recomenda ajustes simples: teclado, mouse e apoio de punho bem posicionados, menos movimento repetitivo, reduzir o sal e não fumar.
"A prevenção está muito ligada a ajustes ergonômicos e a mudanças de hábito, especialmente em quem trabalha com movimentos repetitivos. A educação do paciente é parte fundamental: entender o que é a doença, conhecer os fatores de risco, fazer exercícios de correção postural, adaptar a ergonomia e modificar atividades que sobrecarregam o punho", aconselha.
Qualquer suspeita de síndrome do túnel do carpo, assim como a escolha do tratamento mais adequado, deve ser avaliada por um profissional de saúde.
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