Apenas 4% dos hospitais usam IA na operação, revela pesquisa


A pesquisa TIC Saúde 2024, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostra que 92% dos estabelecimentos de saúde brasileiros utilizam sistemas eletrônicos para registro de informações dos pacientes. Quando o recorte é a inteligência artificial aplicada à operação, o número cai para 4%. Os dados revelam uma assimetria relevante: hospitais avançaram na digitalização do prontuário, mas o monitoramento da infraestrutura física ainda opera, em grande parte, de forma manual.
O Mapa da Transformação Digital dos Hospitais Brasileiros 2024, elaborado pela Folks com base em 187 instituições, registrou maturidade digital média de 46,19% numa escala de 100. O relatório aponta que menos da metade dos hospitais aloca investimentos específicos para transformação digital e apenas 40% realiza qualquer tipo de monitoramento sobre o tema. No subdomínio de estrutura e governança, somente 14% das instituições têm comitês de saúde digital ativos.
No cenário global, o mercado de IoT em saúde foi avaliado em USD 221 bilhões em 2025 e deve crescer para USD 946 bilhões até 2034, com taxa de crescimento anual composta de 16,5%, segundo levantamento da Fortune Business Insights. No Brasil, o setor de dispositivos médicos atingiu R$ 26,1 bilhões em produção industrial em 2024, de acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos (ABIMO), com crescimento de 11,5% em relação ao ano anterior.
A ausência de automação traz riscos concretos para a segurança dos insumos e para a conformidade regulatória. Câmaras de hemocomponentes, redes de gases medicinais e equipamentos críticos, como compressores e refrigeradores industriais, operam sem alertas automatizados na maioria dos hospitais brasileiros. Uma excursão de temperatura não detectada pode inutilizar estoques inteiros de medicamentos e vacinas, com perdas que chegam a centenas de milhares de reais por evento em unidades de grande porte. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por meio de normas como a RDC 430, exige rastreabilidade e documentação contínua desses ambientes, e auditorias com não conformidades podem resultar em interdições e multas administrativas.
"O hospital concentra o maior volume de variáveis críticas por metro quadrado de qualquer ambiente industrial. Temperatura, umidade, pressão de gases, localização de equipamentos: quando qualquer uma dessas variáveis sai de controle sem um sistema de detecção em tempo real, o risco recai sobre o paciente e sobre a conformidade regulatória da instituição", afirma Bruno Rabelo, CEO da DROME, empresa com contratos ativos em unidades da Rede D’Or, DASA e Hemobrás.
A DROME desenvolve uma plataforma de inteligência hospitalar que aplica modelos preditivos sobre dados operacionais de infraestrutura, integrando fontes como sistemas de automação predial, engenharia clínica e facilities. A plataforma processa mais de 102 milhões de leituras por mês a partir de mais de 3 mil pontos ativos em hospitais, indústrias e operações logísticas, e opera tanto sobre hardware IoT proprietário quanto sobre bases de dados existentes via API. A geração automatizada de relatórios para auditoria elimina um processo que antes consumia entre 15 e 20 horas semanais das equipes de qualidade, ao mesmo tempo que antecipa falhas de equipamentos de refrigeração com dias de antecedência.
Estudos do setor indicam que equipes de enfermagem destinam entre 30 e 60 minutos por turno à localização manual de equipamentos como respiradores e bombas de infusão. Esse dado contextualiza uma das aplicações do segmento de RTLS (Real-Time Location System) dentro de hospitais, que integra rastreamento indoor de ativos, pacientes e equipes via Bluetooth Low Energy ao monitoramento operacional. A DROME cobre essa camada dentro da mesma plataforma que supervisiona redes de gases medicinais, detecta padrões de degradação mecânica em compressores e se conecta a bases de dados existentes via API, sem necessidade de substituição de infraestrutura já instalada.
Segundo Rabelo, o volume de dados rotulados acumulados ao longo da operação é o que diferencia modelos treinados em ambiente hospitalar real de soluções desenvolvidas fora desse contexto. "Temos mais de 122 mil justificativas de alarme escritas por especialistas clínicos, cobrindo 27% dos alertas gerados pela plataforma. Esse conjunto de dados é o que permite ao modelo distinguir uma variação de temperatura esperada de uma excursão real antes que os limites regulatórios sejam ultrapassados", detalha o executivo.
O segmento de inteligência hospitalar e rastreamento em tempo real tem atraído volumes crescentes de investimento no mercado global. Segundo levantamento da Grand View Research, o mercado de RTLS em saúde foi avaliado em USD 2,46 bilhões em 2024 e deve atingir USD 9,94 bilhões até 2033, com taxa de crescimento anual de 16,87%. O crescimento é impulsionado pela demanda por rastreamento de ativos médicos, automação de fluxos clínicos e integração com plataformas de dados hospitalares. No Brasil, o segmento segue em estágio inicial de adoção, com baixa penetração de soluções integradas que operam com aprovação regulatória da Anvisa.
O relatório da Folks de 2024 aponta que mais de 62% das instituições hospitalares brasileiras reconhecem a transformação digital como prioridade estratégica. A automação da infraestrutura física permanece como um dos gargalos mais recorrentes no setor, especialmente em unidades que ainda não destinam orçamento específico para tecnologia operacional. Para gestores de engenharia clínica e facilities, a combinação de monitoramento contínuo com análise preditiva representa uma mudança de modelo: de resposta a incidentes para prevenção estruturada de falhas.




